Durante a minha aventura na América do Sul decidi ir até ao Hawaii. Ok, não foi algo que surgiu pela manhã enquanto tomava o pequeno-almoço, mas um amigo estava lá a morar temporariamente e pareceu-me uma boa ideia aproveitar e conhecer as ilhas maravilha. Apanhei um voo no Rio (Brasil) de 12 horas para Houston (USA), outro mais curto para Phoenix, Arizona e finalmente um para Maui, Hawaii. A brincadeira toda da ida ultrapassou as 24 horas, e a diferença horária era brutal (11 horas a menos na altura). Mas estava entusiasmada… e adoro voos, adoro ir lavar os dentes e a cara nos aeroportos depois de um voo nocturno, adoro esta sensação de nem saber há quanto tempo estou a viajar, as pausas para ler enquanto ao fundo, centenas de aviões levantam voo a cada hora (obrigada Kindle, pelas horas e horas de entretenimento que me dás!). No voo do Rio para Houston ia sentada à janela, como escolho sempre, e para minha delícia tinha a cadeira do lado vazia. Voo nocturno, filmes bons à escolha, espaço agradável para me esticar e deitar, e claro, não prescindi dos meus tampões de ouvidos que permitem abafar um pouco o barulho ensurdecedor dos motores: em 12 horas de voo, para mim isto era um luxo! Resumidamente, cheguei bem ao Hawaii, e apesar da longa viagem, estava fresca e cheia de energia para um dia de passeios e de praia. Tinha chegado ao paraíso.
O que ninguém me avisou, é que a viagem para o paraíso é bem melhor à ida que à volta.
Dados uns erros com o voo (quando cheguei para fazer o check-in no Rio de Janeiro o meu bilhete tinha sido “milagrosamente” cancelado, tive de ficar mais de 1 hora ao telefone e comprar outro, que me custou mais e prolongou as horas do voo de volta… devia ter lido os sinais!), o meu voo de volta ficou em quase 30 horas. Voo, escala longa, mais voo, mais escala longuíssima, mais voo longuíssimo. Como passei os últimos dias no Hawaii na Big Island, ainda tive esse voo para juntar à festa. Voo da Big Island para Maui. Voo para Phoenix (sobrevoar o Grand Canyon e prometer um dia lá ir). Espera longa em Phoenix. Voo para Houston. Muitas horas de espera em Houston (tempo para almoçar, descansar, carregar o iPhone e o Kindle, ler quase um livro inteiro, ver lojas, jantar, marcar estadia em Iguaçu online, ir para porta de embarque). Voo para o Rio. Ahhh, estava oficialmente cansada! Já me estava a ver: a dormir o voo inteiro! O meu lugarzinho à janela, eu agarrada à manta quentinha com os meus tampões de ouvidos postos, ver um filme para adormecer… Nada podia interferir com o meu descanso. Era agora, era agora que ia finalmente dormir uma boa dose!
Entro no avião. Instalo-me no meu lugar. Estou pronta: Comandante, bora lá!
É então que vem o simpático senhor comissário de bordo, com mil sorrisos. “Este senhor (aponta para senhor ao meu lado) está separado da filha. A menina está a viajar sozinha, não está? Será que poderia trocar com a filha deste senhor para que possam viajar juntos em família? (enquanto diz isto lança-me uns puppy eyes)” e eu, a mesma de sempre respondi prontamente com um “Claro!”.
Mas agora vem o senão: o lugar da filha (que era afinal bem crescida e não a matava viajar “longe” do papá) era no meio. No meio de tudo! Eu gosto de viajar à janela… e quando não é à janela é imediatamente ao pé do lugar da janela. No meio do avião é muito mau! Três ou quatro lugares pegados, mal se conseguindo ver a janela… pfff. Mas isto não era suficiente para mim… Nãaaao! Consegui calhar entre 2 americanos que vestiam no mínimo um XXXL. E claro que isso também ainda não bastava… Claro que não! Tinham de ir a dormir praticamente TODO o voo e a ressonar. Claro! Se dormi? Claro que não dormi! O comissário de bordo ao jantar para agradecimento ofereceu-me uma bolsinha elegante da primeira classe com pequenos items para um “melhor voo” (tampões de ouvidos, venda olhos, meias quentinhas, caneta, mints, escova e pasta de dentes) e queria oferecer-me de graça (e pela minha “simpatia” ao trocar os lugares) uma bebida alcóolica à minha escolha. Eu, inocentemente, não aceitei. Mas devia… devia porque dormir onde estava era impossível num normal estado de sobriedade. Eu estava cheia de sono. Cansada de tanta viagem e de tanto tempo nos aeroportos. Só queria dormir. Mas era ronco do lado direito, ronco do lado esquerdo, cada um de cada lado a ocupar um bocadinho do meu lugar e claro, tomando posse (e reconhecidamente merecida, dado o tamanho de cada um deles) dos descansos de braços de ambos os meus lados. Felizmente foi um voo sem turbulências, pois se as tivesse havido teria corrido o risco de avalanches tanto pela esquerda como pela direita. Mas tive sorte e sobrevivi.
E uma coisa digo: viva ao in flight entertainment system. Vi todos os filmes que consegui. Não dormi. Nem à casa-de-banho fui, para não acordar os Jabbas ressonadores.
Cheguei ao Rio 12 horas depois, negociei rapidamente preços com um taxista e fui para a casa onde tinha alugado um quarto, uma casa giríssima colonial na Lapa. Lindo quarto. Linda cama… Dormi durante o dia todo mais a noite toda. Não aproveitei a zona trendy da cidade. Mas dormi, dormi tudo a que tinha direito. E mais um bocadinho.
…
E tu? Qual o pior voo da tua vida?
Rita
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