Guiné de parede

by • April 7, 2014 • África, ExperiênciasComments Off on Guiné de parede1632

Quando eu era miúda – mais miúda – o meu pai costumava projectar fotografias da Guiné, na parede lá de casa. Perdi a conta ao ritual, sentada no chão da sala, a ver as portas altas descobrirem devagar a parede iluminada, no corredor atrás delas. A respiração mecânica do projector, que anulava da casa o silêncio, no escuro, embalava-me a sessão e o piscar dos meus olhos, debaixo do foco, era marcado no compasso dos diapositivos que passavam em sonoros “crac-crac!”

Nunca vi a guerra. O meu pai cumpriu serviço militar quando o fogo já cessava e de arma ao ombro e fato camuflado, sorria-me sempre. As paisagens eram quentes, os trajes garridos, as águas translúcidas e as pretas bonitas. O Ambrósio, o saguim de olhos grandes que o meu pai adoptou, ilustrava-me a ideia de que tudo ali era tão puro, que a Natureza não temia os homens e o respeito era recíproco.

Há dias, assistíamos na televisão a uma reportagem sobre a produção de caju na Guiné-Bissau. Não era a Guiné do meu pai, embora no filme ele apontasse os lugares por onde havia passado e emocionado exclamasse “Olha-olha-olha!! Epah…fazía aquele caminho todos os dias!! Passava a ponte…lembras-te da ponte? Epah…como aquilo está!”.

Hoje, não tenho a certeza se aquilo que recordo é mais ou menos verdade do que aquilo que vivi. Mas espero um dia poder, na plenitude dos meus cinco sentidos, confirmar a cor do Sol, a calidez dos sorrisos, a serenidade da água e a textura da terra, no lugar que lhes pertence. Para já, na minha Guiné de parede, projecto a esperança de que um dia o meu sonho possa torna-se memória. Na minha memória.

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Nota: As fotografias foram tiradas às projecções (dos slides) na parede, pelo que a qualidade e enquadramento das mesmas não correspondem 100% às  originais.

Sílvia Duarte

Sílvia Duarte

Estuda Engenharia do Ambiente, mas o ambiente da Engenharia não lhe dá oxigénio. Gémeos de signo: tem levado ao colo O-que-sonha e O-que-faz-acontecermuitas vezes refila. Pensa demais, fala de menos. É provavelmente a pessoa que menosviajou a publicar neste site e a que usará sempre mais palavras para o fazer. Conta histórias, não escreve viagens.
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